2. EVANGELHO DA GRAÇA

O Chamado Irresistível da Graça

É muito importante que voltemos aos ensinamentos dos nossos “pais reformadores” para entendermos as revelações que os moveram. Aqui fiz uma compilação do entendimento que João Calvino tinha a respeito da natureza da graça de Deus (também conhecida como “graça eficaz” e “vocação eficaz”).

Pelo Teólogo Cristão Francês:
João Calvino

Para Calvino, o que significa graça irresistível?

Sabemos que quando o chamado do Evangelho ocorre em uma igreja, ou ao ar livre, ou pela leitura da Palavra de Deus, nem todos atendem. Nem todos ficam convencidos do pecado e sua necessidade de Cristo. Isso explica o fato de haver dois chamados. Não somente há o chamado exterior, existe também o chamado interior. O exterior pode ser descrito como “palavra do pregador”, e quando ocorre pode operar de modos diferentes em diferentes corações, produzindo uma série de diferentes resultados (confira Romanos 10:13-17 e a Parábola do Semeador em Mateus 13:1-23). Uma coisa não fará, entretanto, não operará obra de salvação no coração do pecador. Para que seja forjada a obra de salvação, o chamado exterior precisa ser acompanhado pela abertura do coração do pecador ao chamado interior do Espírito Santo de Deus, pois é Ele quem “convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (João 16:8-11). E quando o Espírito Santo opera na vida de um homem, ou mulher ou jovem por Sua graça, esse chamado é irresistível: manifestação do chamado irresistível da graça de Deus.

Isso é provado vezes e mais vezes na Palavra vivificadora de Deus, como por exemplo nos versículos e trechos a seguir:

  1. Todo o que o pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”, (João 6:37). O contexto aqui é Jesus falando aos Judeus, que O consideravam Mestre. Notemos que são aqueles que o pai “dá a Cristo” que virão a Ele; e quando vierem não serão lançados fora. E Jesus continua:
    1. a) “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (João 6:44). Aqui nosso Senhor está simplesmente dizendo que é impossível aos homens virem a Ele por si mesmos; o Pai tem que atraí-los.
    1. b) “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim’ (João 6:45).
    1. c) Os homens podem ouvir o chamado exterior; mas são aqueles “ensinados por Deus” que responderão e virão a Cristo. Assim foi com Simão Pedro: “Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:17).
  2. Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus” (Romanos 8:14).
  3. Mas quando aprouve a Deus que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim… ” (Gálatas 1:15).
  4. E o Deus de toda graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória …” (1 Pedro 5:10).

Uma ilustração notável desse ensinamento de graça irresistível, ou chamado eficaz, certamente é o incidente sobre o qual lemos em Atos capítulo 16:11-15. O apóstolo Paulo ensinava o Evangelho a um grupo de mulheres às margens de um rio em Filipos; e enquanto o fazia, “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (vs. 14). Paulo, o pregador, falou aos ouvidos de Lídia — o chamado exterior; mas o Senhor falou ao coração de Lídia – o chamado interior de graça irresistível. O fato de Lídia ser uma mulher “temente a Deus” comprova que o coração dela já era atraído por Deus, agora Ela ouviu o chamado da graça irresistível que há em Cristo Jesus.

Calvino acreditava que não somente os homens e mulheres podem resistir ao Evangelho de Deus, como de fato o fazem, e tem que fazê-lo em decorrência de suas naturezas. Por isso acreditava que havia a necessidade de existir uma doutrina como a da graça irresistível. Em outras palavras alguma influência maior que a nossa natureza adâmica e carnal – maior que a nossa resistência – precisa penetrar nossos corações, ou estaremos perdidos para sempre, pois “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus”.

O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:10-13).

Existem três grandes forças trabalhando na questão da salvação do homem:

  1. A vontade do diabo.
  2. A vontade do homem.
  3. A vontade de Deus (1 Coríntios 1:1; 2 Coríntios 1:1; Efésios 1:1; Colossenses 1:1; 2 Timóteo 1:1).

Qual será a vitoriosa? Se a vontade de Deus não for vitoriosa na questão de nossa salvação, então a vontade do diabo o será, pois o diabo é mais forte do que nós. Thomas Watson, um puritano do século XVII, coloca a questão nestas palavras: “Deus segue em frente conquistando na carruagem de Seu Evangelho… Conquista o orgulho do coração, e faz a vontade que se manteve como um Fort Royal contra Ele se entregar e se inclinar à Sua graça; faz o coração duro sangrar. Oh, é um chamado poderoso! Porque então alguns homens parecem falar de uma persuasão moral? Por que dizem que Deus, na conversão de um pecador, só persuade moralmente e nada mais? Se Deus, na conversão de um pecador, persuadisse só moralmente, então não apresentaria um poder tão grande na salvação dos homens quanto o diabo na destruição deles”. De quem será a vontade vitoriosa? Nossa vontade? Mas não é ela que realmente se coloca como “um Fort Royal”[1] contra o Senhor? Realmente, a vontade da nossa natureza carnal batalha e resiste ao chamado de Deus (Gálatas 5:17). “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:39, 40). A vontade do diabo?

Então, quem será salvo, pois Sua vontade sempre será mais forte que a nossa? Mas não será isso o Evangelho, que “um mais forte do que o forte” apareceu, conquistando e para conquistar na carruagem de Seu Evangelho? E Ele conquista! Conquista Satanás, e o homem insignificante também, para a glória de Sua graça irresistível.

Complemento Raimundo Barreto:

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai… Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:14, 16). Cristo Jesus é a manifestação da graça abundante do Pai, que manifesta a Sua glória neste mundo. E Ele, a Graça, é o convite do Pai para a Salvação. Este é o verdadeiro Evangelho da Graça irresistível que deve ser anunciado ao mundo.

No Evangelho de João está registrada, em muitas histórias de vida, o convite irresistível da Graça aos pecadores: a Mulher samaritana, o paralítico junto à Porta das Ovelhas, a mulher pega em adultério e o cego de nascença. Todos estes foram atraídos pelo convite irresistível da graça e neles se manifestou a glória do Pai.

Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (Atos 6:8).

A pregação do Evangelho da Graça, ou a Palavra da Sua Graça, é a maior força atrativa e transformadora dos pecadores. “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”. E Paulo recomendou aos presbíteros da igreja em Éfeso: “Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados” (Atos 20:24, 32). A Palavra da Graça é o poder transformador de Deus, que pode salvar, santificar, edificar e dar herança aos pecadores que a recebem. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome…” (João 1:12). O Evangelho da Graça é o que devemos anunciar no poder do Espírito Santo. Creio que este é o chamado irresistível que devemos pregar a todos os homens.

Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12:31-33). Quando os israelitas foram picados por serpentes no deserto, Deus disse a Moisés para colocar uma serpente de bronze em uma haste (poste). O poste representa a cruz e o bronze fala de julgamento do pecado. Aqueles que viram a serpente no mastro viveram porque viram seu problema – a serpente mortal – pregada e morta na cruz (Números 21:6–9). Hoje, você também não morrerá, mas viverá quando vir todos os seus pecados julgados na cruz e, com eles, todas as suas doenças, enfermidades, dores, fracassos e derrotas! Na cruz, tudo o que é mortal em sua vida foi removido!

Devemos exaltar a Jesus Cristo e fazer as pessoas fixarem os olhos nEle, que providenciou sua libertação e vitória na cruz. Pregue às pessoas que, na cruz, todos os seus inimigos foram derrotados. Todas as suas doenças foram destruídas. Sua pobreza foi removida na cruz. Seus pecados foram varridos na cruz.

A Palavra da Graça não induz as pessoas à auto avaliação, a examinarem a si próprios para buscarem o pecado em suas vidas, antes, deve levar as pessoas a fixarem sua atenção e fé no convite irresistível da Graça que há em Jesus Cristo. Quando a fé for focalizada em Jesus Cristo, o Espírito Santo convencerá a pessoa do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8-11). Note: não apenas do pecado (no singular: O pecado) de não terem crido e recebido a Jesus, mas da justiça que lhe é concedida pela graça (Romanos 5:15-17) e do juízo, poiso príncipe deste mundo já está julgado e ela é livre, em Cristo, do domínio satânico.

Quando os israelitas provaram amargura nas águas de Mara, Deus mostrou a Moisés uma árvore que ele lançou nas águas, tornando-as doces (Êxodo 15:23–26). A árvore representa a cruz, que tornou as águas amargas doces. Hoje, a árvore do Calvário transformou todas as nossas situações amargas em doces. Por causa da cruz, você pode esperar que as situações amargas em sua vida sejam doces!

Pois eu decidi não saber nada entre vocês, exceto Jesus Cristo e Ele crucificado” (1 Coríntios 2:2). Deus quer que preguemos a cruz e a graça que há em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo, em sua carta à igreja de Corinto, disse que ele não sabia nada entre eles, exceto “Jesus Cristo e Ele crucificado”. Em outras palavras, Paulo, que escreveu dois terços do Novo Testamento, estava com a mente cheia de Jesus e Sua obra terminada.

Enquanto Pedro pregava o Evangelho da Paz, por meio de Jesus Cristo, os Seus feitos, como fora pendurado na cruz e Deus O ressuscitara ao terceiro dia; enquanto pregava que “… todos os profetas dão testemunho de que, por meio de Seu Nome, todo aquele que nEle crê recebe remissão de pecados… caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviram a palavra” (Atos 10:34-44). O Evangelho da Graça exalta a obra de Cristo e o que Ele fez, gratuitamente, por nós. Enquanto não olharmos para o que Jesus fez por nós na Cruz, permanecemos cegos, buscando justiça e esforço próprios, e assim, permanecemos presos na mentalidade da Lei mosaica.

A Cruz faz toda a diferença na vida de uma pessoa. Se não compreendermos a fundo sobre ela, nunca iremos conhecer a profundidade do amor de Deus por nós; nunca iremos entender a Sua Graça e o quanto fomos perdoados, aceitos, amados, reconciliados, justificados, abençoados e, agora, temos paz para com o Pai.

Não importa aprendermos tudo sobre a Bíblia, se não apreendermos todos os tesouros e riquezas que Cristo nos trouxe. Medite na cruz. Foque na Cruz. Procure todas as respostas para seus problemas na Cruz. Busque ter uma revelação profunda do que ela significa. Ela nos traz a real dimensão de quem nós éramos, de quem Ele é, e de quem nos tornamos nEle (nossa nova identidade).

A Cruz nos traz tudo o que Ele já conquistou para nós, pois a Palavra diz que nela Cristo triunfou sobre todo o mal, enquanto ela ainda esclarece tudo o que precisamos saber nessa vida; e quando é Cristo o que nos importa, nada mais importa! “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz (Colossenses 2:15). É isso que o Espírito vem nos revelar (ou convencer): que os nossos pecados foram todos perdoados, que somos justos em Cristo perante o Pai e que todos os principados e as potestades foram expostas ao desprezo.

Qual é o testemunho do Espírito Santo em nossos corações: “Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo; porquanto, após ter dito: Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei, acrescenta: Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniquidades, para sempre. Ora, onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hebreus 10:14-18). É neste testemunho que você deve permanecer firme.

Que todos os seres humanos possam aceitar o chamado irresistível da Graça: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30).


[1] A Batalha de Fort Royal foi uma batalha naval travada em Fort Royal, Martinica nas Índias Ocidentais, durante a Guerra Anglo-Francesa em 29 de abril de 1781, entre frotas da Marinha Real Britânica e da Marinha Francesa.


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