Por que existe tanto mal no mundo?
Por que existe tanto mal no mundo? (1:18 a 3:20)
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Você já se perguntou por que vemos tanta violência, corrupção, injustiça, guerras e sofrimento? A resposta da Bíblia pode surpreender.
A análise de Romanos 1:18-32 revela o ponto mais baixo da condição humana e serve como um diagnóstico espiritual necessário para que a “adoção de filhos” seja compreendida em toda a sua magnitude. Paulo inicia este trecho estabelecendo que a ira de Deus está irrompendo do céu, não é um surto emocional, mas uma reação judicial e santa contra “toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (1:18).
A impiedade (irreligiosidade) refere-se à dimensão vertical do pecado, ou seja, à falta de reverência e ao desprezo por Deus, ignorando Sua glória e autoridade. Já a perversão (imoralidade), frequentemente traduzida como injustiça, representa a dimensão horizontal, refletindo como a quebra do relacionamento com Deus corrompe inevitavelmente a moralidade e as relações interpessoais. O ponto central dessa passagem é a afirmação de que os homens “DETÊM” ou suprimem a verdade pela injustiça, o que indica que o problema fundamental da humanidade não é a simples ignorância ou a falta de provas sobre a existência divina, mas uma escolha deliberada de ignorar o que já foi revelado.
O grande problema da humanidade não é apenas fazer o mal. É rejeitar a verdade de Deus. Quando o homem empurra a verdade para longe, perde também o referencial do bem, da justiça e da vida. No contexto, Paulo está explicando principalmente por que a ira de Deus se revela sobre a humanidade: porque os homens SUPRIMEM (κατεχόντων, katechontōn) a verdade pela injustiça. O aumento do mal aparece como consequência dessa supressão da verdade, especialmente nos versículos 21–32.
Paulo argumenta que o conhecimento de Deus através da natureza e na consciência é tão clara que o ser humano precisa exercer um esforço ativo para “ABAFAR” essa percepção, afim de poder continuar vivendo conforme seus próprios desejos. Assim, o apóstolo estabelece que ninguém possui desculpa diante de Deus, pois a REJEIÇÃO DA VERDADE é um ato da vontade que prefere o erro à submissão ao Criador, preparando o terreno para demonstrar a necessidade universal da salvação por meio da graça.
A manifestação da verdade divina ocorre através de dois “livros” distintos, mas harmoniosos: a criação e as Escrituras. Na chamada revelação geral, como aponta o Salmo 19:1 ao dizer que “os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos “, o universo funciona como uma evidência inegável do poder e da inteligência do Criador, permitindo que Seus atributos invisíveis sejam percebidos pelas coisas criadas (1:20). Entretanto, essa “assinatura” na natureza é completada pela revelação especial das Escrituras, que são “sopradas por Deus” (2 Timóteo 3:16) para revelar não apenas a existência de um Designer Inteligente (DI)[1], mas o Seu caráter redentor e Sua vontade específica para a humanidade. Enquanto as coisas que foram criadas exibem a majestade de Deus aos olhos, a Bíblia comunica Sua graça ao coração, permitindo que o ser humano saia da mera admiração do cosmos para o relacionamento pessoal e transformador com o seu Autor.
Assim sendo, o apóstolo argumenta que a humanidade é indesculpável porque a revelação de Deus foi impressa na própria estrutura do cosmos, de modo que a negação do Criador não é uma falha de intelecto, mas uma rebelião da vontade. Ao suprimirem o que era óbvio na criação, os homens caíram em um estado de obscurecimento mental onde, pretendendo-se sábios, tornaram-se loucos, trocando a glória do Deus imortal por imagens de criaturas perecíveis. Esta “troca fatal” é a essência da idolatria.
O aspecto mais aterrorizante dessa exposição é o conceito da “ENTREGA” divino, que aparece repetidamente nos versículos 24, 26 e 28. Diferente de um juízo de fogo imediato, a ira de Deus aqui se manifesta como um abandono judicial: Deus permite que o ser humano experimente as últimas consequências de sua própria autonomia. Quando o homem insiste em viver sem Deus, o Criador respeita essa escolha, entregando-o à imundícia, às paixões infames e a um sentimento depravado. O resultado não é a liberdade prometida pela corrente de pensamento do Humanismo, mas um cativeiro vicioso em uma lista interminável de pecados sociais e relacionais, como a inveja, o homicídio e a falta de afeição natural.
A compreensão das três “entregas” em Romanos 1 é fundamental para perceber a progressão da decadência humana quando o relacionamento com o Criador é rompido. Paulo utiliza o verbo grego (G3860, na Concordância de Strong –παραδιδωμι – paredōken) para descrever essa ação divina, um termo que carrega uma conotação judicial de “ENTREGAR PARA CUSTÓDIA” (para ser julgado, condenado, punido, açoitado, atormentado, entregue à morte) ou “permitir que as consequências sigam seu curso natural”. Longe de sugerir que Deus induz o homem ao erro, a Escritura revela que Ele simplesmente “cruza os braços” e retira a Sua graça.
Imagine um juiz que, após sucessivas tentativas de reabilitação de um réu que insiste em cometer crimes, finalmente profere a sentença: “Entregue-o às autoridades competentes para que ele sofra as consequências diretas de seus atos”. No contexto de Romanos 1, essa expressão não descreve um Deus que “empurra” o homem para o pecado ou que sente prazer na destruição da criatura. Pelo contrário, trata-se de um abandono judicial[2]. É o momento em que a paciência divina, que agia como uma barreira de contenção (a graça comum), é retirada. Deus deixa de impedir que o homem siga o caminho autodestrutivo que ele mesmo escolheu. É como se a humanidade estivesse em uma ladeira perigosa e Deus estivesse segurando o carro pelo para-choque; “entregar para custódia” é o ato de Deus soltar o veículo, permitindo que a própria gravidade do pecado faça o restante do trabalho.
Esse conceito ecoa perfeitamente o Salmo 81:12, onde Deus, diante da persistente rebeldia de Israel, declara tê-los deixado andar na teimosia de seus próprios corações. É o julgamento mais severo de todos: permitir que a criatura se torne o seu próprio mestre e siga seus próprios conselhos, o que inevitavelmente conduz ao caos.
A primeira entrega ocorre no nível dos DESEJOS, quando Deus os entrega à concupiscência do próprio coração (1:24, 25). Aqui, o centro da vontade humana é corrompido, e a busca pelo prazer pessoal substitui a adoração ao Criador. O resultado imediato é a desonra dos corpos, pois quando o coração perde sua âncora em Deus, ele passa a tratar o templo físico como um mero instrumento de satisfação egoísta. É o estágio onde a autonomia moral começa a desfigurar a dignidade humana, transformando o que deveria ser sagrado em algo profano e comum.
A segunda entrega aprofunda-se na esfera EMOCIONAL E AFETIVA, onde Deus os entrega a paixões infames (1:26, 27). Neste estágio, a distorção do coração transborda para as relações interpessoais, subvertendo a ordem natural da criação. Paulo descreve como o abandono de Deus leva à perda da distinção entre o que é natural e o que é contrário à natureza, resultando em uma desorientação dos afetos que afeta a identidade e a sexualidade.
Essa entrega demonstra que a rebelião contra o Pai se manifesta, em última instância, como uma confusão biológica e emocional, onde o ser humano tenta reinventar sua própria essência à revelia do seu Designer. Este ponto inclui o homossexualismo[3], tratado por Paulo como tema aos romanos.
Finalmente, a terceira entrega atinge o ápice da tragédia humana: a disposição mental reprovável (1:28-32). Este é o estágio do OBSCURECIMENTO TOTAL DA RAZÃO, onde o intelecto se torna incapaz de discernir o valor moral das ações. A mente, que deveria ser o guia para a sabedoria, torna-se “reprovada” ou “rejeitada” (adokimos), assemelhando-se a um metal que falhou no teste de pureza. Com a mente corrompida, a humanidade passa a praticar coisas que não convêm, mergulhando em uma lista de vícios sociais e éticos que destroem o tecido da convivência humana. Ironicamente, enquanto se acham sábios em sua “liberdade” e autonomia, os homens tornam-se prisioneiros de uma loucura intelectual que os impede de reconhecer sua própria ruína. Assim, a “escalada de fé” ganha aqui um contraste dramático: enquanto o Evangelho oferece a renovação da mente para a adoção, o pecado oferece o apodrecimento da mente para o abandono.
Na estrutura da “escalada de fé”, este trecho funciona como o espelho que quebra o orgulho gentílico, provando que a humanidade longe do Pai não é apenas “imperfeita”, mas está em um estado de decomposição moral. Somente quando o leitor encara o abismo desse abandono é que ele pode valorizar a mão estendida de Deus no capítulo 3 e o abraço de aceitação do Pai no capítulo 8, transformando o órfão entregue às suas paixões em um filho resgatado pela obediência de Cristo.
[1] O Design Inteligente (DI) é a proposta de que certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente.
[2] Paulo escreve para cidadãos imersos na capital do Império, onde o Direito Romano era a base da civilização. O apóstolo utiliza estrategicamente a linguagem jurídica para explicar a salvação, recorrendo a termos como JUSTIFICAÇÃO para descrever a absolvição legal do pecador diante de Deus, REDENÇÃO para ilustrar a libertação por meio de um resgate pago, e ADOÇÃO para representar a transferência de direitos e herança legal ao novo filho. Assim, ele transforma conceitos jurídicos familiares àquela cultura em ensinos fundamentais da fé (doutrinas), para descrever a nova identidade do cristão perante o tribunal divino.
[3] Em Levítico, essa ordem é traduzida em um código de conduta porque, na mente divina, a desordem ética, moral ou física é um retorno ao caos, algo que desintegra a identidade humana. Por isso, em Levítico 20:10-27 Deus estabelece fronteiras de como se expressa a sexualidade – Ele está ensinando que a identidade nasce da distinção
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